7.10.08

Liberdade.

Pedro olhou ao redor e tudo parecia confuso, a luz negra fazia o branco dos dentes de Paula brilharem, o pó branco separado em fileiras já bagunçadas sob a mesa de vidro eram a fonte do lilás mais brilhante. Entregou-se ao lilás e agarrou Paula sem pudor. O som ao fundo era ensurdecedor, as batidas não paravam e, naquele dia, ele não sentiu seu coração e respiração seguir o ritmo.
As luzes que brilhavam do outro lado do bar pareciam o chamar, ele observava atentamente o piscar do neon vermelho fazendo curvas sob o corpo de alguém. Logo ali, tão perto, mas ele sabia que se seu corpo não chegaria tão longe. Paula curvou-se e cheirou mais um pouco daquilo que a fazia sorrir, ele observou desapontado.
Houve um dia que Pedro não teve a necessidade de se sentir completo no meio de tudo tão perdido. Aquela liberdade que ele almejou por toda sua juventude, neste dia, o fez infeliz. Em um impulso puxou Paula e a abraçou, ela por sua vez, agitada com o sangue bombando em suas veias, o empurrou com um olhar de desprezo. Sua noite acabaria solitária.
Não foi a primeira vez que Pedro sentiu o peso da solidão, o peso de ter tudo mas não ter nada em absoluto. O copo cheio de vodka desceu pela sua garganta sem ele sentir. Pedro tinha o que sonhava: era sócio de uma casa noturna badalada, seu carro atingia 3 dígitos em segundos, seu apartamento nunca ficava vazio e sua cama feita sob medida sempre contava com um corpo esbelto feminino. Mas não naquela noite.
Pedro abriu a geladeira procurando satisfazer sua ansiedade, as garrafas de cerveja e vodka não era o que ele procurava, a caixa quase vazia com algumas torradas não era o que ele queria. Vasculhou os armários e encontrou alguns chocolates perdidos que ao derreterem em sua boca, trouxeram lembranças.
Sua infância havia sido tímida, cheia de dúvidas e problemas. Nunca foi um aluno ou filho que não desse orgulho. Sua Mãe era uma dona-de-casa adorável, sua Avô o apresentava para todos, seu Pai se orgulhava por cada palavra que saia de sua boca, mas, durante a vida cheia de perguntas e inseguranças, ele tornou-se um outro alguém.
Suas primeiras noites de bebedeira com seus primos o fez prometer nunca mais encostar numa garrafa, obviamente uma promessa que não fora mantida. As primeiras noites de sexo casual aos 17 anos o fez prometer nunca mais repetir, e ele já havia repetido pelo menos três vezes na última semana. Seu primeiro baseado o fez feliz, e ele prometeu que era apenas por curtição, hoje, o pó era uma necessidade.
Sentou-se no sofá bege e sentiu um cheiro doce vindo de uma vela perfumada na mesa de centro, Pedro demorou alguns segundos até decifrar o por que aquele odor fazia-o sentir confortável e perto de estar completo. A imagem foi aos poucos desenhada em sua mente, como um quebra-cabeça: lábios finos, sorriso tímido, olhar atento, cabelos compridos, castanhos e lisos.
Laura o fez descobrir o mundo, seu cheiro doce era espalhado pelo vento que batia na varanda onde se conheceram. Seu rosto era angelical, suas mãos eram macias e ele sabia que aquele toque era ímpar. Laura foi a dona do bater mais forte de seu coração, do sorriso mais espontâneo por uma surpresa, do beijo mais demorado de saudades, do abraço mais apertado de amor.
Pedro lembrou-se do sentimento mais excitante que já havia presenciado, do bater ardido que seu coração já foi responsável, das perguntas sem respostas que o faziam fugir, da insegurança em perder sua liberdade, de não ter aquilo que ele julgava necessário. Lembrou-se de como aquela insegurança o fazia vivo. Era melhor que qualquer whisky importado, melhor que o pó mais puro que já havia experimentado.
Cinco anos haviam se passado desde que Laura o deixou viver sua vida. Ela queria um amor, ele liberdade. Ela queria segurança, ele aventuras. Ela era sentimento, ele razão. Ela era o hoje, ele o amanhã. Ela queria estar presente... ele também. Pedro fugiu daquilo que era certo e correu atrás de seus sonhos, sonhos esses que hoje não mais o satisfaziam.
A cama naquela madrugada parecia fria, procurou encontrar satisfação com as lembranças das noites viradas com Laura ao seu lado, reclamando da sua falta de carinho, pedindo por sua atenção. Pensou no sexo não-casual que eles dividiram por um tempo, do olhar doce que sempre vinha após o prazer, dos cabelos que tantas vezes estiveram entrelaçados em seus dedos. Pedro encontrou felicidade, mas sabia que era tarde.
Era tarde pra ligar e dizer "Sinto muito", tarde pra perceber oque já estivera claro em sua mente algumas vezes. Era tarde pra deixar pra trás sua liberdade. Agarrou o telefone e discou, com a esperança de que ela atendesse, ele ainda sabia seu número sem precisar pensar.
Uma voz rouca atendeu "Alô?", Pedro ficou mudo por alguns segundos e sua mão suava "Laura?", um silêncio absoluto pareceu congelar sua espinha "Pedro?", "Uhum...", "Pedro, é um pouco tarde!", ela disse com uma risada no fim, "É muito tarde?". Laura voltou a rir "4 e meia da manhã... o que aconteceu? Tá tudo bem?", "É muito tarde pra dizer que eu ainda te amo?". Um silêncio tomou conta da situação, "Desculpa, eu não deveria ter ligado...", "Não, eu só não sei o que te dizer...", "Eu demorei demais", ela voltou a rir "É, demorou sim!".
Neste dia, Pedro perdeu a liberdade, mas ganhou a esperança natural de um coração que batia mais forte por alguém que o ensinou a agora, esperar também. "Eu queria te ver", "Pedro... agora eu não posso mais".

2.10.08

Disfarce.

Me segurei mais uma vez. Eu nunca soube dizer um adeus e nunca soube aceitar viver sem a minha ilusão de ser feliz. Eu estava feliz. Meu sorriso nunca foi irreal e meus olhos olhavam de lado, disfarçando meu amor. Tentei me esconder.
Não será hoje o dia de eu dizer que já te esquecí e não estou nem ligando se você for embora. Não é nenhum segredo que eu não sei fazer isso, não é surpresa que eu não te mande viver a sua vida bem longe dos momentos que eu sei que também te fizeram feliz. Eu não vou dizer coisas contrárias.
Minha confusão tornou-se parte de mim, e eu não sei como é viver sem ela. Eu não sei se eu quero viver sem ela. Guardo as lembranças no presente, como algo que me segure a continuar. Talvez eu não deva continuar, simples assim, mas, simplicidade não é algo que faz parte de mim, todo mundo sabe.
Cair na mesma história é quase um final feliz, e não é que eu fique procurando remexer ou colar oque já foi quebrado mas é quase inevitável. Eu conheço essa história e sei que ela não talvez não chegue a lugar nenhum muito longe, mas eu nunca liguei pra isso. Eu não vou mentir pra mim.
Não estou bem certa em afirmar que meu outro lado é oposto, que meu outro lado disfarce tudo, menos o olhar. O outro lado se esconde, sem ao menos tentar, diz ser hoje o último dia, que não está nem aí. Sabe esconder as lembranças como se elas tivessem dissipado com o vento. Esse outro lado vive certo, sem confusão alguma, sabe o que quer, e não acredita no inevitável.
Meu outro lado conhece a confusão, não se dá bem com ela exatamente por se sentir exposto, e ele quer disfarçar. Meu outro lado vive pelo amanhã, pelo o que pode vir a acontecer, pelas consequências. Esse outro lado é frio, disfarça ser sensível, torna-se intocável e egoísta, mas sente por dentro as consequências de evitar.
O meu erro é nunca saber em qual lado acreditar, qual deles faz o certo, qual deles eu escolho pro meu amanhã. Qual deles acredita tanto no amor ao ponto de se jogar ou evitar. Qual deles tem mais perguntas que respostas. Qual deles se sente mais livre sendo preso.
No final no dia, os dois lados são iguais, usam máscaras pra fugir do medo de voar sozinho, e, no fim, tudo acaba confuso e sem nenhuma explicação, e é exatamente assim que eu escolho um amanhã acreditando que nada será perfeito, porque nada é perfeito.
Nenhum lado é certo demais, nenhum deles sabe ao certo oque fazer, só seria mais simples juntar os dois e parar de uma vez por todas com a confusão, e todo o disfarce.