10.7.08

Silêncio.

A música terminou. Meus olhos se abriram e ele não estava mais comigo. Eu pensei por alguns segundos se um dia ele já esteve. Seus olhos se concentravam em algo que não era meu sorriso ou minhas lágrimas, e eu, sentada na ponta da cama, me serví outra dose.
Já houve um dia em que eu não sentí tanta vontade de encher meu copo, que eu não me sentí quase obrigada a esquecer da noite que ele estava tão distante. Eu ouvia sua voz recuar e seus pensamentos agitados o deixavam com o olhar perdido.
Peguei nas mãos frias que ele escondia de mim e meu coração congelou. Sentí como se naquele momento tudo tivesse acabado. Foi o fim. Os dedos dele já não tocavam a minha pele do mesmo modo, e sua respiração acontecia normalmente quando ele me abraçava.
Apertei o play e fechei os olhos. Ele me abraçava e minha pele toda arrepiava, como se fosse um choque. Minha respiração parou por alguns segundos, eu não precisava conhecer o mundo pra saber que aqueles olhos eram donos do verde mais perfeito. Seus lábios tocavam os meus e eu acreditei que aquilo era como estar no céu. Sua pele tocava na minha como cetim, ele me olhava nos olhos e eu sabia que aquilo era amor.
Ouví um ruído estranho. A cama estava vazia e ele à minha frente me disse "Eu preciso ir". A música havia acabado, e com ela veio o silêncio da minha dor ao vê-lo partir, mais uma vez. Meus olhos não souberam reagir, meus lábios pareciam serrados, e eu sabia que ele não iria voltar.
"Por que você tem que ir?"
"Eu só preciso..."
Ele se aproximou e minhas veias jorraram todo o sangue pro peito, aquilo queimava, ardia mais que eu imaginava. Eu não queria o silêncio, murmurei:
"Não vai embora"
O seu olhar desviou e quanto mais perto eu sentia ele chegar, mais queimava por dentro. Ele não soube oque dizer, ele não sabia como me deixar.
"Eu não te amo mais"
Minha garganta se fechou, e por dentro era como se estivessem me cortando, eu sentia o frio da solidão e o quente do meu amor. Não haviam argumentos que eu pudesse usar pra que ele ficasse.
"Você já me amou?"
"Eu não sei..."
"Se você um dia me amou, então fica"
"Eu não posso ficar"
"Então vá, mas se você for, não olhe pra trás"
Eu me levantei e meus pés pareciam não tocar o chão, me virei de costas e apertei o play, fechei os olhos e lá estava ele...

7.7.08

Diferenças.

Outro dia se passou e novamente ele me ligou com a desculpa de sempre. Nossa relação não chega perto de ser normal, ele, um cara meio excêntrico que vive de sonhos como conhecer a Índia e mochilar pelas ruínas não combinam com meus sonhos de hotéis cinco estrelas.
Ele às vezes parece que chupou alguns limões antes de me ver, sempre reclama, e, incrivelmente, eu adoro a cara feia que ele faz quando eu peço pra voltar pra casa. Seus joguinhos chegam a duvidar de seus vinte e dois anos de idade, suas palavras não coincidem com sua imagem e seu carinho meio rude não chegam a ser carinhos, mas mesmo assim eu os recebo.
Eu não suporto quando ele engole fazendo barulho, e ele não suporta me ver descalça andando pelo chão sujo da sua casa. Eu não suporto aquele painel de ET's que ele tem no quarto como decoração, e ele acha meus seis murais espalhados pelo quarto com dezenas de fotos um desperdício.
Nossas escolhas sempre são divididas: eu quero comida japonesa e ele acha nojento, ele quer comida indiana, e eu acho detestável. Ele gosta de Fanta Uva e eu não consigo entender como ele consegue não beber Coca-cola. Ele acorda às seis e eu não durmo antes disso.
Meus amigos o adoram, e os dele me acham esquisita. Talvez eu realmente seja. Ele ouve músicas cabeça, e eu sou anos oitenta. Ele gosta de branco, e eu de preto. Ele mora com os pais e eu sou a ovelha negra da família.
Somos opostos por fora, mas debaixo do cobertor velho de lã que ele adora, nossos olhares e respirações se cruzam incrivelmente bem. O coração dele bate no meu ouvido e é gostoso de ouvir. O café que ele me faz é o melhor que eu já tomei, e só ele acerta o sal da pipoca. Ele sempre me trás coca no copo curvado azul que eu amo, e nunca errou em nenhum presente que ele já me deu.
Eu sei quando posso mexer com ele pelo modo que a sua sobrancelha se curva, e ele me entende sem ao menos estar perto de mim. Ele sabe que eu me arrependo quando eu ligo só porque estou me sentindo sozinha, mesmo que ele tenha acabado de me deixar na porta de casa.
Até as coisas que me irritam nele eu gosto, eu não imagino nossa relação sem os monólogos que ele dá a caminho da casa de algum amigo, reclamando que queria ter ficado em casa comigo assistindo pela décima vez "De volta para o futuro". Como seria acordar sem ele amassando a minha perna direita e como seria se a barba dele fosse macia e não me deixasse com a pele irritada?
A gente não tem tudo pra dar certo, mas o que nós temos, aproveitamos. Nossa relação não é confortável, mas eu prefiro que não seja. Eu não sou a senhora perfeição dele, mas ele não procura perfeição. Ele não é o que eu sonhei quando eu era criança, mas eu queria ser doméstica naquela época, não é confiável.
O carinho rude, a risada torta e até o franzir a testa criam nosso conforto, criam uma expectativa em ter mais do mesmo. Amar nunca conseguiu explicar como é, mas muitas vezes eu chego a ter certeza que isso é amor.

1.7.08

Namoro na TV.

Namoro, que palavra que assusta, não? Você tem idéia do que é, afinal, namorar? Na sua cabeça como é essa relação? É um fardo a ser carregado, é um prêmio a ser admirado, é um momento a ser aproveitado?
O que é um namorado, uma namorada? É alguém que te enche o saco, que te faz feliz, que te dá segurança, é um amigo que você pode fazer tudo?
Existem tantas reflexões sobre esse nominho que eu chego a me assustar também. Um namoro consiste em basicamente duas pessoas que querem estar juntas, sim? Ou é um estado civil que implica em você não ter mais uma vida social super-ativa que, se você parar pra pensar, é uma ilusão?
Estar com alguém é planejar um futuro, é ter responsabilidades, é se preocupar com o nome dos filhos, -ou do cachorro pros mais modernos- ou seria simplesmenta aproveitar o momento?
Essa coisa toda de namorar acho que assusta mais os homens que as mulheres, e com razão, mais da metade da ala feminina já passou por tantos chifres e trocas por uma bunda mais durinha que quando cái um na mão, ela quer segurar pra valer!
Caros, namorar não é algo tão complicado se você seguir algumas regras que, na real, nem são regras.
Para os homens: poder ver o futebol sem você enchendo o saco, poder beber com os amigos e ver bundas rebolando sem maldade, só por ver, poder ter um dia ou outro pra refletir, pra ficar na dele sem ninguém perguntando tudo, ter você nos momentos que ele quer que você esteja, e ter alguém sempre agradável com boa vontade pra entender que ele não sabe muito bem o que quer -e nunca vai saber.
Para as mulheres: não ser uma opção, ser a única mulher que você se lembra quando quer sair com uma mulher e fazer coisas que você faz com o sexo feminino, ser tratada com carinho e respeito, ser compreendida na TPM, poder comprar sapatos [muito importante], e receber o amor que é às vezes um saco pra você, homem, mas que pra ela é uma forma de demonstrar carinho.
Para os dois: não ser tão cobrado nem ter MUITO de qualquer coisa, tudo em excesso acaba cansando.
Por que complicar tanto, achar que a vida de namorado é uma desgraça, que o sexo com a namorada não tem graça, que a juventude acaba quando você namora? Namorar é simplesmente ter alguém que você pode ser do jeito que você realmente é, sem precisar ser perfeito o tempo todo, mas se preocupar em estar a qualquer momento. É uma amizade, uma troca de favores, com benefícios que eu tenho certeza que valem a pena.
Obviamente é bom quando o cara é um estilo Brad Pitt e a mulher uma Angelina Jolie, mas vive a realidade, eles não são desse mundo!
Abraça a felicidade se ela existe, essa coisa de ter medo de não dar certo é desculpa, porque nada nessa vida é certo. Sua faculdade, seus amigos, seu trabalho, nada é certo, mas pode ser.
Arriscar é bom, não é bicho de sete cabeças, só dói no começo depois acostuma e você até aprende a gostar!

A arte imita a vida.

Cada um, cada um. Cada indivíduo pensa e age de uma maneira imprevisível aos olhos dos expectadores da vida, mas mesmo um maluco fanático por qualquer coisa se identifica com algum tipo de arte.
Eu diria que filmes são como documentários da vida, com personagens e histórias que evoluem conforme as consequências dos atos. Vira e mexe quando alguém me conta um acontecimento eu lembro de algum filme, e aí eu acabei vendo que minha vida não daria um filme incrível.
Seria uma espécie de Drama com humor com momentos depressivos onde qualquer um poderia dar uma risada e até se identificar absurdamente. Um auto-aprendizado com lances astrológicos e monólogos sobre a vida e como as pessoas são medrosas.
Na realidade, um filme da minha vida não atrairia multidões e muito menos agradaria os cults da vida, porque eu, no final do dia, acabo sendo uma filhinha de papai metida a psicóloga barata que se preocupa demais em agradar pra, também no final, ser agradada.
Meu filme teria um trilha basicamente depressiva com letras profundas e bem trabalhadas, alguns pop's que quase ninguém entende porque eu gosto, e algum rock bem estranho que deixaria o povo com cara de interrogação.
Os personagens seriam incrivelmente comuns e cheios de insegurancas, assim como eu. Eles seriam quase protagonistas porque, basicamente, pessoas que fazem realmente parte da minha vida não são coadjuvantes.
Um filme confuso do tipo que não se encaixa em drama, comédia, aventura... com uma protagonista que não é loira nem morena, que não sabe se está certa ou errada, que não sabe se é feliz ou não, que não tem idéia de como seria um final feliz.
Teria duas amigas que ganhariam o Oscar e que arrancariam suspiros de todo mundo, uma família maluca que muita gente gostaria de ter igual, um amigo imaginário, um computador muito dedicado e algumas histórias comoventes com amigos que não são amigos em vários sentidos.
Contaria com uma história com um final nada feliz, com uma história de novela e outra que não tem pé nem cabeça. Cenas em bares, ruas, ônibus e muitas casas com muitos figurantes que sempre serão somente figurantes, mas que fizeram parte em algum momento da história.
Se meu filme terminasse hoje, de fato, ninguém ia entender o final. Não seria Shakespeariano. Se tivesse um fim, seria um totalmente indigno de fim. Um daqueles finais que você fica com muita raiva de alguém da história, sendo que não é pra ser assim.
Portanto, eu ainda não terminei meu roteiro, e eu vou, à partir de agora, escrever um final feliz digno de Cinderella, porque se a arte imita a vida, por que a vida não pode imitar a arte?