Outro dia se passou e novamente ele me ligou com a desculpa de sempre. Nossa relação não chega perto de ser normal, ele, um cara meio excêntrico que vive de sonhos como conhecer a Índia e mochilar pelas ruínas não combinam com meus sonhos de hotéis cinco estrelas.
Ele às vezes parece que chupou alguns limões antes de me ver, sempre reclama, e, incrivelmente, eu adoro a cara feia que ele faz quando eu peço pra voltar pra casa. Seus joguinhos chegam a duvidar de seus vinte e dois anos de idade, suas palavras não coincidem com sua imagem e seu carinho meio rude não chegam a ser carinhos, mas mesmo assim eu os recebo.
Eu não suporto quando ele engole fazendo barulho, e ele não suporta me ver descalça andando pelo chão sujo da sua casa. Eu não suporto aquele painel de ET's que ele tem no quarto como decoração, e ele acha meus seis murais espalhados pelo quarto com dezenas de fotos um desperdício.
Nossas escolhas sempre são divididas: eu quero comida japonesa e ele acha nojento, ele quer comida indiana, e eu acho detestável. Ele gosta de Fanta Uva e eu não consigo entender como ele consegue não beber Coca-cola. Ele acorda às seis e eu não durmo antes disso.
Meus amigos o adoram, e os dele me acham esquisita. Talvez eu realmente seja. Ele ouve músicas cabeça, e eu sou anos oitenta. Ele gosta de branco, e eu de preto. Ele mora com os pais e eu sou a ovelha negra da família.
Somos opostos por fora, mas debaixo do cobertor velho de lã que ele adora, nossos olhares e respirações se cruzam incrivelmente bem. O coração dele bate no meu ouvido e é gostoso de ouvir. O café que ele me faz é o melhor que eu já tomei, e só ele acerta o sal da pipoca. Ele sempre me trás coca no copo curvado azul que eu amo, e nunca errou em nenhum presente que ele já me deu.
Eu sei quando posso mexer com ele pelo modo que a sua sobrancelha se curva, e ele me entende sem ao menos estar perto de mim. Ele sabe que eu me arrependo quando eu ligo só porque estou me sentindo sozinha, mesmo que ele tenha acabado de me deixar na porta de casa.
Até as coisas que me irritam nele eu gosto, eu não imagino nossa relação sem os monólogos que ele dá a caminho da casa de algum amigo, reclamando que queria ter ficado em casa comigo assistindo pela décima vez "De volta para o futuro". Como seria acordar sem ele amassando a minha perna direita e como seria se a barba dele fosse macia e não me deixasse com a pele irritada?
A gente não tem tudo pra dar certo, mas o que nós temos, aproveitamos. Nossa relação não é confortável, mas eu prefiro que não seja. Eu não sou a senhora perfeição dele, mas ele não procura perfeição. Ele não é o que eu sonhei quando eu era criança, mas eu queria ser doméstica naquela época, não é confiável.
O carinho rude, a risada torta e até o franzir a testa criam nosso conforto, criam uma expectativa em ter mais do mesmo. Amar nunca conseguiu explicar como é, mas muitas vezes eu chego a ter certeza que isso é amor.
