Alto, moreno, olhos claros. Amigos, cerveja e cigarro. Sonhos, ideais e desilusões. Vida boa, pais admiráveis, filho único. Carro, agenda lotada e dinheiro. Felicidade, saúde e saudades. Augusto, 22 anos, apaixonado.
Sexta no bar com os amigos: previsível. Augusto ligou para Clara, sua paixão não declarada, seu bem-estar, suas horas mais bem gastas, seu sorriso mais sincero, sua verdade. Estava se sentindo só. A lua brilhava no ponto mais alto, passava da meia-noite, o copo de cerveja suava sob a mesa e as histórias alheias não o interessavam. Clara não atendeu.
Augusto sentia um sentimento novo, sentia como se seu estômago estivesse preso, amarrado, vazio. Sentia uma fome insaciável, mas nada o apetecia. Suas idéias não se completavam, seu olhar não se focava, seu sorriso forçava para o lado. Algo estava estranho. As piadas dos amigos não faziam sentido "Estou de mau-humor", pensou.
As pausas entre uma chamada e outra pareciam tomar um ritmo diferente, assim como as batidas no seu peito, se contradiziam. Clara não atendeu pela terceira vez, Augusto não deixou de tentar a quarta. Logo ele, um alguém orgulhoso que dizia não insistir, foi traído pelos instintos. Acendeu mais um cigarro.
Os minutos não estavam mais correndo como antes, e ele só se concentrava em encontrar Clara, em saber porque ela não estava lá aquela noite. Queria falar com ela, vê-la por alguns momentos, nem se fosse só levá-la pra casa. Seu desejo mais estranho era o de sentir o cheiro dos cabelos dela, de sentir seu perfume ao passar, de ouvir aquela risada exagerada.
O barulho alto do outro lado da linha não o deixava escutar direito, mas a voz era doce:
"Oi Ti!", Clara atendeu finalmente.
"Cadê você?",
"Em um bar com meus amigos".
Augusto sentiu uma dúvida estranha, um pensamento que saiu em voz alta, "Ah, com seus amigos...legal." disse em tom diferente, baixo, sem entusiasmo algum, quase que reprimindo.
"Tá tudo bem aí?", Clara desconfiou.
"Uhum..." Ele respondeu sem novamente perceber o tom ríspido em sua voz.
"hum, então tá, depois eu te ligo! Beijo, Ti!".
Uma onda de descrença tomou conta dele, como uma interrogação pelas últimas palavras de Clara, "Beijo, Tchau", quase bravo, desligou sem esperar a reação, porém, dentro dele, ele esperava que ela retornasse.
Seus impulsos tomaram conta da situação, algo novo pra ele, sempre tão controlado, que desacreditava no tal ciúmes que todos falavam, mas lá estava Augusto, de pé encostado na parede, longe de todos seus amigos, olhando para seu celular, esperando que Clara retornasse, desejando ligar novamente e dizer mais, pedir desculpas talvez, perguntar se podia ir buscá-la, mas outra parte nova dele pensou duas vezes, não querendo dar motivos pra ela pensar que ele estivesse preocupado.
A sexta havia terminado, e Augusto voltou pra casa ainda esperando que Clara ligasse. Mas ele também não ligou. Tentou disfarçar repetindo em sua mente que não se importava, e neste dia, de lua cheia, Augusto pendurou seu quadro na parede dos apaixonados. Foi traído pelos instintos, tomado pelo ciúmes, e agora, angustiado pelo dia seguinte.
